revista querida, outubro 1999, n 196, p.94

SEXO É HEREDITÁRIO

DE MÃE PRA FILHA, DESDE O TEMPO DA SUA TRISAVÓ

Por Bia Villarinho

Se você sortuda e conheceu sua trisavó, certamente não chegou a conversar sobre sexo com ela. Pois saiba que aquela velhinha adorável do álbum de família fazia sexo, sim senhora. Igualzinho a você! A gente disse igualzinho? Bem, mais ou menos… Do tempo dela até agora, muita coisa mudou. Evoluimos em um monte de coisa, mas, em alguns pontos, com certeza sua avó diria que andamos para trás. Olha só:

Anos 10

Por volta de 1905, nasce sua bisavó. Se hoje ainda existem tantos mitos, tabus, preconceitos… Imagina na época! Educação sexual não tinha. Educação o quê? As meninas não conversavam sobre sexo nem entre elas.

Enquanto isoo, em Viena, um certo dr.Freud começava a explicar (com certeza para entender): a libido é a energia que move o desejo sexual. E a sexualidade infantil é definida pelo complexo de Édipo. O filho deseja a morte do pai porque está apaixonado pela mãe. (Vale para a filha, só muda o nome do complexo, que é de Electra.)

Um beijo bom pode ser um bom começo de tudo. Isso sempre foi assim! O primeiro da história do cinema foi em 1896.

Os moços só casavam com moças virgens, claro. Elas eram as meninas “direitas”. O noivo se entendia com o sogro e resolvia tudo – noivado, casamento, dote – entre eles. A noiva não podia piar, só obedecer. Primeiro ao pai, depois ao marido. O namoro era pegar na mão e ficar na sala. A diversão e a boemia eram só para eles, que podiam freqüentar os cabarés, onde as “moças de vida fácil” caíam na farra. As certinhas, coitadas, tinham que se contentar com uns saraus chatos e olhe lá. Depois de casadas, se o marido fosse legal, as coisas melhoravam. Apesar da Chiquinha Gonzaga, que fez força para mudar tudo isso, o cenário era esse mesmo.

O absinto, um licor conhecido como maldição verde – feito com planta do mesmo nome e com um teor alcóolico de 68% -, foi proibido na França em 1915, de tão afrodisíaco. Com esse nome, não é de estranhar.

Anos 20

Verdade seja dita: nem a sua bisa, nem a minha, nem nenhuma moça do mundo naquela época sabia muito sobre sexo e anticoncepcionais. Elas iam tendo filho, um atrás do outro. E já se fazia aborto, também, sempre por baixo do pano. O fato é que se morria para caramba de parto! (E ainda se morre, infelizmente, embora menos. É a quarta maior causa de morte entre as mães. Já em matéria de aborto, as estimativas do ano passado foram de mais de 570 000 casos. Moça de calça comprida? O que é isso? Mulher não coloca nem para andar a cavalo! O método mais comum para não engravidar era interromper a relação sexual. Simples, né? Frustração garantida e eficiência altamente discutível. Mas era o que tinha. Rodolfo Valentino é o latin lover da hora. Equivalente masculino da femme fatale. O que hoje a gente conhece como sex symbol ou Brad Pitt. Em 1928 D.H.Lawrence escandaliza o mundo lançando o livro “O Amante de Lady Chatterley”, com altas cenas de sexo. Moça fina não lia! (Ou lia escondido…)

Anos 30

É chegado o tempo da sua vovozinha. Descoberta a vulcanização da borracha. Pronto:já dava para fazer a camisinha elástica, bem parecida com a que a gente conhece hoje. Precisa dizer que ela foi superbem-vinda? Um ginecologista japonês e outro austríaco descobrem, em 1932, que a ovulação ocorre no meio do ciclo menstrual. O método leva o nome dos dois, “Ogino-Knaus”. Pra gente, a famosa tabelinha entra em ação. Mão na mão, beijinho, de levinho, e tome carta! Os namoros eram escritos e sonhados. A barra da saia subiu, os decotes aumentaram e as moças evoluídas até fumavam. É a época das melindrosas, com suas franjas, colares e boquinhas, muito vermelhas e sensuais. Maquiagem? Pó-de-arroz (você sabe o que é isso?) e batom, que se passava com pincel.

Anos 40

Você se lembra da sua vó dizendo que fulano se comportava como um don-juan? Vem de um personagem sedutor espanhol que colocou o desejo milhas e milhas na frente do amor. O Papa Pio XXII reafirma a condenação de anticoncepcionais. Para evitar os filhos, só a abstinência. A educação sexual começa a ser discutida em todo o mundo. Quer dizer, aqui do Brasil ela continuava longe. Na década de 40, uma mulher de 40 anos era considerada velha, com netos e tudo. Ter filhos nessa idade? Só se fosse o 15º!

Com a Segunda Grande Guerra Mundial as mulheres precisam sair de casa para trabalhar. Ai, já viu: no que foram à luta, voltar para casa ficou complicado.

No ano de 1949, Simone de Beauvoir, a primeira escritora feminista, escreve o livro “O Segundo Sexo” e decreta: “Não se nasce mulher. Torna-se”.

Anos 50

Bem-vinda ao mundo, querida mãezona! Os rapazes classificam: moças são honestas ou galinhas. Os amassos no carro esquentam. Os pais saíram da sala. Ficavam de olho pela janela… Ser noiva de aliança era lei. Depois, era fazer enxoval e casar. Virgem ,claro. Correndo por fora vinha “Esse tal de Roquenrol” botando pra quebrar. A juventude transviada acha seu espaço: James Dean, Marlon Brando e Elvis Presley, com sua dança pra lá de sensual, faziam a cabeça da moçada. Daqui para frente as coisas mudam rápido, em ritmo de guitarra. As meninas passam a usar jeans: calça comprida não é mais coisa só de homem. Marilyn Monroe escancara: era sexo puro! Dormia só com uma gota de Channel nº5, fazia charme de voz rouca para o presidente Kennedy. As puritanas, para segurar a onda, diziam que ela era infeliz… Afinal, linda e triste podia. Ser aquela explosão e feliz, a moral vigente não ia aguentar.

Anos 60

Métodos anticoncepcionais modernos e seguros chegam aos mercado: a pílula e o DIU. Depois da pílula, o mundo nunca mais seria o mesmo: a mulher passa a controlar seu próprio corpo. Resultado: mudança total nos costumes. (Hoje, mais de 8 milhões de mulheres brasileiras tomam pílula.) É o tempo dos hippies e do flower power. Os jovens deixam o cabelo crescer, vivem em comunidade, fazem amor e vão para a rua lutar por seus direitos, como não ir para a guerra (Vietnã). “É proibido proibir” e “Faça amor,não faça guerra” são as palavras de ordem. Os Beatles e os Rollings Stones explodem na Inglaterra. “Let it be” ou “Satisfaction”? Alguém falou “Help”? A chamada revolução sexual liberou geral em 1968. Discussão sobre o amor livre, masturbação, direitos iguais entre homem e mulher, sexo em grupo, aborto. Se você nunca assistiu a “Hair”, do Millos Forman, nem na TV, corra pra locadora. A moda é o unissex: os dois vestidos iguais. Os dois? Os três, os quatro… A virgindade é questionada na teoria, na prática e nos muros: “Virgindade dá câncer” aparecia pichado. 18/3/1969: John Lennon se casa com Yoko Ono e os dois passam uma semana na cama, celebrando. Se o casamento ia mesmo ser notícia, por que não aproveitar e fazer logo uma performance para o bem? “Give Peace a Chance.” Não, o sonho não acabou. Ele só mudou. Em 1969, cansados de sofrer humilhações, homossexuais de Nova Iorque se rebelam e lutam contra a polícia. O ataque termina em tragédia. Um ano depois, mobilizados, comemoram o Dia do Orgulho Gay. Todo ano tem parada no mundo inteiro, com todo mundo na rua, com bandeiras de arco-íris (perfeito!), o símbolo da luta homossexual, na mão.

Anos 70

Em 1970, Janis Joplin e Jimi Hendrix morrem de overdose. Jim Morrison morre no ano seguinte. O sonho acabou. Meninas modernas andam sem sutiã, que as feministas queimaram em praça pública como símbolo dos novos tempos.

A “amizade colorida” vira moda. Pode transar, beijar, fazer tudo,sem namorar e sem compromisso. “Ninguém é de ninguém.” Casais experimentam o casamento aberto, sem repressão ou ciúmes (pelo menos na teoria!). Camisinha? Muitos nem sabem o que é… Só se fala em “Último Tango em Paris”, filme de Bernardo Bertolucci, proibido no Brasil. Sexo pelo sexo, e fim de papo. Muita polêmica e filas nos cinemas. Não havia mais limites para ser quebrados? Nada a preservar? A pergunta estava no ar? Leitura obrigatória: “Relatório Hite” (1976), livro da Share Hite, discute abertamente o orgasmo da mulher e sai dia alto da estante para a cabeceira da cama. Nunca se falou tanto sobre sexo. Se faziam na mesma proporção, é outra história… Ninguém se assusta com divórcio ou separação. Noivado? Ficou careta, sabe? As mulheres se separam e de filhos com ex-maridos. 1979: “Kraemer X Kramer”. Um filme mostra que o filho, abandonado pela mãe, pode ficar só com seu pai e ser muito feliz.

Anos 80

“Querida, você nasceu!” As lingeries sensuais saem debaixo da roupa. Gaultier e Madonna (lá vem ela!) voltam a valorizar o velho e bom sutiã e ainda o corselete, do século passado. Quem falou que sutiã é para ser queimado? É para ser usado? Mais um filme dá bandeira: “Baby Boom”, com a Diane Keaton, conta a história da executiva que não queria ter filhos até herdar um bebê. O fim? Ela larga a carreira e fica com a filha. Moral da história: a mulhereda começa a repensar esse negócio de “tudo pelo trabalho”. Notícia do primeiro casamento oficial entre dois homens, lá na Dinamarca. Feministas? Sim, elas vieram para ficar. Mas o grosso do trabalho pela igualdade dos direitos já foi feito. Bom trabalho, garotas! Agora, o lance é valorizar as diferenças!  Aids muda a vida sexual das pessoas. Usar camisinha vira obrigação: é o único modo comprovadamente seguro de não contrair o vírus HIV numa relação sexual. Um movimento de “volta para casa” começa a aparecer: legal é ter casa bonita, direitinha, com cachorro, filhos, papagaio. Chega de bagunça da farra, pela farra. O tal casamento aberto não deu certo. O ciúme existe, sim, e ninguém quer saber de negar. Todo mundo quer fechar a relação e se fechar em casa, de preferência bem juntinho. E viva a fidelidade.

Anos 90

Madonna é a nova Cleópata, não tem medo de se expor. Faz fotos nua e lança um livro chamado “Sex”, em 1992, que deixou o mundo de boca aberta. Nas fotos ela mostra todas as suas fantasias sexuais, e a galera pagou caro para ver (100 dólares cada livro). Ao contrário da Marilyn, ela brinca com o sexo e é feliz. Tem uma filha quase aos 40 anos sem se casar e matricula a menina no mais careta, tradicional e rígido colégio inglês. Como a Madonna, mulheres de 40 anos ou mais passam a engravidar pela primeira vez. Com a questão da realização no trabalho resolvida, como abrir mão do desejo de ser mãe?

Casamento? Bem, umas querem, outras não. Não faz tanta diferença.

Adolescentes ensinam e advertem: ficar faz bem à saúde! Namorar é legal e ninguém abre mão, mas por que não uns beijos sem compromisso antes.

Atenção: se ficou demais, é galinha, minha filha! O século vai mudar e a galinha continua firmona. O que mudou, pelo jeito, foi só o limite do que é permitido fazer. Depois de batalhar pelo direito ao sexo sem amor, americanos andam falano de amor sem sexo. Coisa de americano? O que vale é estar junto, casar, criar família. Sexo é um detalhe absolutamente dispensável.

Sexo virtual disputadíssimo na internet. Por favor,…, com camisinha dá pra fazer seguro, unplugged! A camisinha feminina vai chegando devagarinho e já é comercializada em alguns países desde 1992. Aids é fatal. Atacou 4 milhões de pessoas em 1993, matou 1 milhão e meio em 1996. Não tem essa de grupo de risco. De seis anos pra cá, os hetrossexuais são a maioria infectada, tanto homens como mulheres. Se você pensa que é só falta de informação, não é não. De acordo com o Ministério da Saúde, aqui no Brasil, as pessoas com formação superior são mais infectadas do que as que têm 2º grau completo (só perde para as pessoas que não têm o 1º grau).Entre 1980 e fevereiro desse ano, foram 155 590 pessoas infectadas no país. Por isso, sim, sexo muito seguro sempre. A pílula anticoncepcional do dia seguinte, do “arrependimento”, chega aqui. Dá para tomar depois da relação sexual e ainda se preservar. De acordo com uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Ginecologa, 22% dos casos de gravidez eram indesejados. Depois da chegada da nova pílula, esse número caiu para 10%. Sexo na terceira idade: por que não? O Brasil é o segundo maior consumidor de Viagra. Quem não conseguia transar mais está a mil graças a esse remédio. Montes de vovós e mamães felizes outra vez com a performance dos vovôs e papais. Tá rindo do quê? Se tudo der certo, um dia você chega lá. A ciência comprova: sexo emagrece, protege o coração, alivia as tensões do dia-a-dia e rejuvenesce. Claro, desde que seja feito sempre e com amor. Segundo um estado do americano David Weeks, quando a gente faz sexo com envolvimento afetivo, o cérebro libera substâncias que retardam o envelhecimento. É a prova que a gente precisava: viva o amor!

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