revista trip

Revista Trip, maio 2006, nº 144

Intimidade de Improviso, maio 2006, 144

Intimidade de improviso

O arquiteto e decorador Marcelo Rosenbaum fala de improviso, pois diz que é assim que ele mora, trabalha e vive melhor. Seguindo esta lógica, escolheu contar uma passagem pessoal e profissional, que envolve gente conhecida dessa revista. Intimidade que, se você está lendo essa matéria, foi devidamente autorizada

Há cerca de um ano, a Jessica, mulher do Paulo Lima, me ligou convidando para almoçar com eles e conhecer a casa. Adorei a ideia. Conhecer a casa das pessoas é meu jeito de me aproximar. Com direito a almoço, então, uma deliciosa invasão consentida de privacidade.

À primeira vista, foi o jardim que chamou minha atenção. O primeiro pensamento foi: por que numa casa de dimensões generosas, que tem um jardim que parece lindo, a gente come numa copa proporcionalmente pequena, com janelas também pequenas? Ok, o almoço e a conversa estavam gostosos demais para pensar nisso. Pensamento reincidente: salmão e salada verde maravilhosos. Quer prova mais contundente de que o casal tem prazer em receber amigos, ao redor da mesa? O combinado era mesmo de eu dar meus palpites. Continuamos a conversa pelo resto da casa. Fiz merecidos elogios ao almoço e aos móveis que estavam lá. Tudo me pareceu bem escolhido e com a cara deles. Ao lado dessa copa, a cozinha. Depois, duas salas de estar. Uma maior que a copa, onde fica a tv. E a outra, maior ainda, tratada como principal. Saltou aos olhos a evidência: o tamanho das salas era inversamente proporcional ao uso que eles davam a elas. Ishhh, isso pareceu equação matemática. Mas é totalmente comportamental. Era essa a grande dança das cadeiras que precisava. A minha sugestão foi a de manter a copinha onde almoçamos para refeições rápidas. Na primeira sala, onde estava a televisão e a famosa estante de livros do Paulo, montar a sala de jantar, mantendo a estante pra fortalecer a prazerosa combinação amigos, livros e boa comida, com vista para um jardim incrível.

O som e a tv ganharam espaço e conforto na sala maior, dividida em dois ambientes, pelo jogo de sofás. Foi o que sugeri, assim de improviso. Saí de lá sem saber se não os tinha decepcionado, se esperavam que eu desconstruísse mais. Ficamos de nos falar logo, o que acabou demorando meses, até que encontrei o Paulo e ele me contou que as mudanças fizeram muito bem para o dia a dia deles. Ufa! Senti o prazer de ter confiado no improviso. Pessoalmente, pela possibilidade de repetir o salmão da Jessica. E profissionalmente, no sentido que eu entendo o improviso* no trabalho, como o frescor de olhar para uma situação sem a tirania da solução preconcebida.

*por definição do Michaelis, improviso significa “produto intelectual feito de repente, sem premeditação nem preparo”.

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