revista: simples

Matéria “Kitschnetes”, publicada na revista Simples, dez/jan 2004, n 24.

|concepção: Marcelo Rosenbaum | fotos: Rochelle Costi | texto: Bia Villarinho|

Kitschnetes

Depois de 20 anos, Marcelo Rosenbaum voltou ao prédio onde morou em Santo André, não só para visitar seus pais que ainda moram lá, mas para responder a  pergunta: “O apartamento do vizinho é sempre melhor?” Ou, talvez, para resgatar referências do seu trabalho de hoje, para acabar com velhas fantasias, para alimentar novas fantasias, ou, simplesmente, para olhar pelo buraco da fechadura do vizinho com a devida autorização.

Anos 80

O Valium deu lugar aos antidepressivos, o moderno ao pós-moderno, a comida macrobiótica ao sushi, a liberação social bateu de frente com a AIDS, o casamento passou pra trás a amizade colorida, fumar perdeu a elegância. Até a Jane Fonda, de garotapropaganda oficial da militância virou protagonista de vídeos de ginástica, saudando a geração saúde. Surgiram novas maneiras de amar, vestir, comer, se divertir, tratar arte e cultura, e, claro, de morar.

E em Santo André, num momento efervescente do ABC Paulista, não foi diferente do resto do mundo. A palavra de ordem foi estilo pessoal. Trazendo isso para dentro de casa, mais especificamente para a decoração luxuosa dos grandes espaços, não faltavam móveis em laca, forros de gesso desenhados, espelhos em formas angulosas e poderosas paredes de som.

Famílias já preocupadas com a falta de segurança urbana, começam a trocar suas casas bastante confortáveis por prédios de alto padrão. Os Rosenbaum, assim como outros nomes conhecidos da cidade, povoaram os apartamentos – daqueles que não se identifica pelo número e sim pelo andar. Entre outras dimensões priviliegiadas, uma sala de estar (ou living para escrever na língua da época) de 300m2. Espaço suficiente para a curiosidade do Marcelo, então morador do 4º andar, que ainda não atuava profissionalmente como arquiteto, mas que já prestava muita atenção na relação entre o espaço e o comportamento das pessoas.

Ano 2003

Marcelo Rosenbaum e a fotógrafa Rochelle Costi chegam ao prédio para uma visita com hora e lugares marcados: a idéia é fotografar a sala-de-estar dos apartamentos dos antigos vizinhos, exatamente do mesmo ângulo.

Para o Marcelo, a primeira impressão foi de que tudo continua exatamente no mesmo lugar: os móveis, os objetos e a evidente satisfação dos moradores. Mesmo nos apartamentos que ele jamais havia entrado, a sensação é a mesma. Talvez o movimento mais notável tenha sido o dele mesmo, que saiu do prédio em Santo André para o seu escritório de arquitetura e design em São Paulo. É claro que isso mudou o seu ponto de vista, mas não o deixou menos curioso.

4º andar

“O meu referencial era a decoração do nosso apartamento e o modo de vida da minha família. Aí eu ficava imaginando como eram os outros apartamentos e como era a vida dos vizinhos. Até criei uns personagens na minha cabeça: tinha o poderoso, o sofisticado, o hippie…”

Subindo…

6º andar

“ O meu melhor amigo ainda mora aqui. Quando eles mudaram, foi um decorador famoso do ABC quem fez o apartamento. Tinha toda uma história comportamental em função do bar, da família e das visitas.”

7º andar

“Eu só conhecia o hall. E como ali havia duas esculturas, por muito tempo eu acreditei que eles eram colecionadores de arte.”

11º andar

“Tudo era modernéssimo. E tudo me deixava encantado: os objetos, os estofados, as misturas de estampas, a escultura de chifre incrível!”

13º andar

“Eles tinham a vida mais diferente. Praticavam esportes e viajavam para praia pra surfar no final de semana. Clima total relax.”

15º andar

“Eu imaginava que ali tinha tudo de mais refinado. Eu sabia que eles colecionavam muitas coisas e morria de curiosidade para conhecer.”

…descendo.

Acabada a visita e desmitificada a memória, hora de voltar pra casa e

Definitivamente sepultar a velha crença: o apartamento do vizinho nunca foi nem nunca será melhor.

Marcelo reviu um passado de 20 anos, hoje com os olhos de um profissional que antes de tudo presta atenção no comportamento de quem ocupará os espaços que ele cria – pode ser um apartamento, uma casa, uma loja ou uma festa. Este é o verdadeiro estilo que ele reconheceu no antigo endereço em Santo André, inclusive no apartamento dos pais. E que,efetivamente, hoje norteia sua vida e seu trabalho. E olha que manter este estilo dá um prazer danado e, na maioria das vezes, não tem absolutamente nada a ver com a época.

O escritório de arquitetura e design do Marcelo Rosenbaum fica em São Paulo, na rua Cristiano Viana, 224 e/ou no web site http://www.rosenbaum.com.br. Como trilha sonora para ler esta matéria, ele sugere Madonna, Boy George&Culture Club, New Order, Teas for Fears, The Smiths, Blitz, Barão Vermelho e Titãs. Como lugar, qualquer lugar como se fosse na sua casa. “There is no place, like home”, viu vizinho?

Bia Villarinho, ex-vizinha de porta do Marcelo.

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